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Juventudes, governança e conservação: aprendizados de uma experiência regional na ALC

Para além da participação: juventudes construindo governança para a conservação

Nos últimos anos, a Celebração das Áreas Protegidas e Conservadas da América Latina e do Caribe envolveu jovens de diferentes países, territórios e setores em processos relacionados à conservação, à governança territorial e à articulação regional.



No entanto, uma das principais lições aprendidas é que a participação juvenil não pode ser avaliada apenas pela quantidade de jovens envolvidos, mas pela qualidade dos espaços que ocupam, pelas responsabilidades que assumem e pela capacidade real que possuem de influenciar os processos.

Essa reflexão ganha especial relevância em um contexto no qual as juventudes são cada vez mais reconhecidas como atores estratégicos para a implementação do Marco Global da Biodiversidade, da ação climática e da governança ambiental. Organizações como a UNICEF, o Escritório das Nações Unidas para a Juventude e diversas instituições internacionais concordam que a participação significativa implica influência efetiva nas decisões, acesso à informação, desenvolvimento de capacidades, reconhecimento das contribuições e mecanismos de prestação de contas.


Uma experiência construída na prática

A Celebração é uma iniciativa regional voltada ao fortalecimento de processos territoriais que sustentam a conservação por meio da articulação, do desenvolvimento de capacidades, da produção de evidências e da incidência.

Entre 2021 e 2025, a iniciativa conseguiu conectar experiências em 21 países da América Latina e do Caribe, mais de 300 áreas protegidas e conservadas e uma rede regional de embaixadoras e embaixadores comprometidos com a promoção de processos territoriais de conservação.


Durante esse período, numerosos jovens assumiram responsabilidades substantivas em diferentes níveis da iniciativa. Não apenas participaram de atividades ou eventos, mas também coordenaram processos, impulsionaram celebrações territoriais, gerenciaram redes sociais, coordenaram, capacitaram e avaliaram mais de 90 embaixadores e embaixadoras, desenvolveram estratégias de comunicação, promoveram parcerias, apoiaram a mobilização de recursos, fortaleceram vínculos com atores territoriais e contribuíram para o desenvolvimento metodológico e tecnológico da iniciativa.

Além disso, participaram da organização logística e programática do Dia das Áreas Protegidas e Conservadas da América Latina e do Caribe, da elaboração de relatórios regionais, de espaços de incidência e da construção de propostas para o reposicionamento estratégico da iniciativa rumo a 2026.

Essas experiências demonstram que as juventudes podem desempenhar papéis relevantes em processos regionais de conservação quando existem oportunidades reais para isso.


O que funcionou

A experiência acumulada permite identificar alguns fatores que favoreceram a participação juvenil.

Em primeiro lugar, a atribuição de responsabilidades concretas. Os processos nos quais as juventudes assumiram tarefas específicas de coordenação, articulação ou gestão tenderam a gerar maiores níveis de compromisso e continuidade do que aqueles em que sua participação se limitou a atividades pontuais.


Em segundo lugar, a possibilidade de construir redes regionais.

Em terceiro lugar, a aprendizagem prática. Muitos dos conhecimentos desenvolvidos surgiram da experiência direta em processos reais de governança, organização e articulação territorial, mais do que de instâncias formativas tradicionais.

Por fim, a flexibilidade organizacional permitiu que pessoas com trajetórias, capacidades e disponibilidades muito diferentes encontrassem formas diversas de contribuir para a iniciativa.


O que também aprendemos

A experiência mostra igualmente que a participação juvenil enfrenta desafios importantes.

A existência de espaços para participar não garante automaticamente incidência efetiva. Em alguns casos surgiram percepções de baixa visibilidade, dificuldades de acesso a espaços de decisão ou limitações para compartilhar experiências territoriais em cenários regionais.

Também foram evidenciadas tensões relacionadas à sustentabilidade do voluntariado. Grande parte do trabalho desenvolvido por jovens e adultos foi realizada sem financiamento específico, conciliando responsabilidades profissionais, acadêmicas, familiares e pessoais com as exigências da iniciativa.

Os processos de conservação exigem continuidade, mas as trajetórias juvenis costumam ser marcadas por mudanças frequentes de estudo, trabalho, residência ou prioridades pessoais. Isso gera desafios permanentes para sustentar equipes, lideranças e níveis de participação ao longo do tempo.


Da mesma forma, a gestão de redes colaborativas complexas envolve conflitos, diferenças de expectativas, problemas de comunicação e tensões organizacionais que afetam tanto as juventudes quanto pessoas com maior experiência. A governança colaborativa não consiste na ausência de conflitos, mas na capacidade de administrá-los de maneira transparente, respeitosa e construtiva.

Um aprendizado especialmente relevante está relacionado aos limites estruturais do trabalho voluntário na América Latina e no Caribe. Embora o compromisso, a vocação de serviço e o sentimento de pertencimento tenham sido fundamentais para sustentar a iniciativa, a conservação não pode depender indefinidamente do esforço não remunerado das pessoas. Em contextos marcados por desigualdades socioeconômicas, precarização do trabalho, dificuldades de acesso a financiamento e múltiplas demandas familiares e comunitárias, o voluntariado prolongado tende a gerar sobrecarga, desgaste emocional, rotatividade de lideranças e perda de capacidades acumuladas. Essa realidade afeta tanto jovens quanto adultos e constitui um dos principais desafios para a sustentabilidade das iniciativas territoriais de conservação.

A experiência da Celebração demonstrou que o voluntariado pode ser um poderoso motor de inovação, articulação e ação coletiva, mas também que requer condições favoráveis para se sustentar ao longo do tempo.

Isso inclui reconhecimento das contribuições realizadas, distribuição equilibrada de responsabilidades, mecanismos de acompanhamento e bem-estar, oportunidades de desenvolvimento de capacidades e, sempre que possível, acesso a recursos que permitam fortalecer processos sem transferir permanentemente os custos da conservação para aqueles que já dedicam tempo, conhecimento e esforço aos seus territórios.

Fortalecer a governança também significa reconhecer e enfrentar essas condições humanas e institucionais que sustentam o trabalho coletivo.


Um novo ciclo orientado à governança e à evidência

O processo de reposicionamento de 2026 busca responder a parte desses aprendizados.

A iniciativa está transitando de um modelo centrado principalmente na visibilização das celebrações para uma abordagem orientada a compreender como a governança colaborativa contribui para a conservação efetiva.

Por meio do projeto de pesquisa socioambiental “Modelos de Governança Territorial e Resiliência Socioambiental na América Latina e no Caribe”, propõe-se analisar de forma sistemática a relação entre participação, inclusão, confiança, legitimidade, ação coletiva e resultados de conservação.

O estudo utilizará uma abordagem de pesquisa-ação participativa e um desenho longitudinal baseado em três momentos de acompanhamento (diagnóstico, planejamento e avaliação), permitindo gerar evidências territoriais verificáveis sobre as condições que fortalecem a governança e a conservação nas áreas protegidas e conservadas da região.

As juventudes constituem uma dimensão transversal desse processo. A pesquisa permitirá compreender melhor como sua participação influencia a legitimidade, a sustentabilidade e a capacidade de articulação das iniciativas territoriais.


Um convite para construir a próxima etapa

Os desafios da conservação na América Latina e no Caribe exigem o fortalecimento de capacidades, redes e mecanismos de governança capazes de articular atores diversos em torno de objetivos comuns.

Por isso, o ciclo de 2026 convida organizações, comunidades, instituições, jovens, embaixadoras e embaixadores a registrar e desenvolver celebrações territoriais que contribuam para melhorar a governança e a conservação efetiva das áreas protegidas e conservadas.

Mais do que aumentar o número de atividades, o objetivo é compreender melhor quais processos geram mudanças reais, quais condições fortalecem a ação coletiva e como as experiências territoriais podem contribuir tanto para a conservação da natureza quanto para o bem-estar das pessoas.

A principal lição aprendida até agora é que a conservação não depende apenas de áreas ou políticas públicas. Ela também depende das pessoas, das relações, da confiança e da capacidade coletiva de construir futuros a partir dos territórios.


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